Caminhos de bem-querer...
Por tanto tempo, somos condicionados a crer somente ao que nossa mente nos conta. Ela, possui dentre muitas funções, o julgamento, aquele que avalia dentre seu repertório de vivências ao qual foi exposta, aspectos positivos, e negativos. A própria sociedade, supervaloriza as mentes mais intelectuais, julga ser isto, a própria "sabedoria". Ledo engano, são apenas uma porção de informações imputadas em nosso armazenamento interno de dados! Não nos dá a atribuição de "pensar", somente de armazenar e encher nosso sistema de dados inúteis.
O problema, é que somente ela, é um sistema falho e incompleto, se com ela não incluirmos a sabedoria e inteligência que possui o coração.
Somos ensinados a cultivar a razão, as coisas que vemos, as coisas palpáveis, tangíveis, as coisas as quais podemos ter controle e saber tudo o que dela podemos esperar. Em momento histórico ao qual buscamos de forma desmedida o controle das coisas, da vida, dos sentimentos, frustramo-nos quando as coisas não acontecem como prevíamos, como gostaríamos, como julgamos ter organizado tudo em seus mínimos detalhes para que pudesse sair conforme nossos planos.
Dentre tantos desdobramentos, criamos círculos viciosos em nossa mente, que por conseguinte, adoecemos e enfraquecemos nossas outras capacidades, nos tornamos escravos de nossa própria mente. Entramos em uma fissura mental em ver e entender a vida somente por aquilo que externamente vemos, por aquilo que se apresenta como o "fato pelo fato em si". E se, nos afixamos demasiadamente nos fatos pelos fatos em si, nos tornamos demasiadamente reducionistas, visto que nos falta a capacidade de compreender a Vida como um "todo", em todas as suas camadas de expressão.
Não conseguimos abarcar em nossa história pessoal a possibilidade de contemplá-la nas belezas de suas entrelinhas, como um caleidoscópio, pelas variáveis de outros ângulos.
A vida, vai perdendo a cor, o sabor, a ternura. Nos afundamos em um emaranhado cinzento de suportar a vida, de nos arrastarmos em sua penumbra, de estilhaçarmos nossos sonhos, nossa seiva, nossa vida interior.
Gradativamente, uma mente adoecida, acaba por pesar em todas as outras camadas, até adoecer nosso corpo físico. Quando não nos voltamos para dentro, quando não silenciamos nosso barulho interno e, só prestamos atenção ao externo, cremos sermos vítimas dos outros, do sistema, dos relacionamentos, do trabalho, da vida que nos desgraçou e nos quer ver devastados. Jogamos todas as nossas dores no externo, e gastamos toda nossa energia em combater e nos proteger de tudo que há "fora".
Não fomos ensinados a suportar a tristeza, a angústia, o vazio... Entretanto, aí reside os melhores brotos de renovação, aí reside o novo, aí reside a possibilidade de transformação, regeneração, de cura.
É como o atemporal poeta Austro-Húngato Rainer Maria Rilke (1875-1926) nos diz no encantador livro Cartas a um jovem poeta:
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornaram estranhos para nós. Isso porque estamos sozinhos com o estranho que entrou em nossa casa, porque tudo o que era confiável e habitual nos foi retirado por um instante, porque estamos no meio de uma transição, em um ponto no qual não podemos permanecer. É por isso que a tristeza também passa: o novo em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração, alcançou seu recanto mais íntimo e mesmo ali ele já não está mais - está no sangue. E não percebemos o que houve. Seria fácil nos fazer acreditar que nada aconteceu, no entanto nos transformamos, como uma casa se transforma quando chega um hóspede. Não somos capazes de dizer quem chegou, talvez nunca cheguemos a saber, mas vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós muito antes de acontecer. Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora. Quanto mais tranquilos, pacientes e receptivos formos quando estamos tristes, tanto mais profundo e mais firme o modo como o novo entra em nós, tanto mais fazemos por merecê-lo, tanto mais ele se torna o nosso destino. (Rilke, Reiner Maria, 2013, pg. 74,75)
E é justamente aí que a transformação, o novo, a vida passa a atuar. Podemos compreender que, se não considerarmos e incluirmos o elemento supremo de um processo alquímico que passa pelo coração, não conseguimos curar nossas mais profundas feridas, não conseguimos fazer as pazes com nossa própria história, não conseguimos nos harmonizar com a vida.
Faz-se necessário silenciar para que possamos escutar o que as situações querem nos mostrar, a desmistificar que os momentos dolorosos são sinônimos de algo ruim, e que a dor serve para nos fazer mal. São o núcleo, o caldeirão, o terreno propício para restituir aquele fio adoecido em nossa vida.
Caso não queiramos passar pela vida em vão, caso queiramos buscar sentido nos altos e baixos de nossa trajetória pessoal, é preciso deixar a mente de lado e nos permitir um salto no escuro de nosso centro, de nossa bússola, e observar para onde a flecha de nosso coração aponta, e simplesmente segui-lo.
#joycegurgel

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