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Permita que eu te ame...

Ha muito, observo sobre a temática "relacionamentos", nunca vi tantas pessoas fechadas ao amor (muito embora, falamos em seu nome diariamente), com o argumento de que já sofreram tanto que hoje, posicionam-se "fechados", acreditando ser essa a melhor postura diante de histórias que lhes foram doloridas.

Temos medo de sofrer tudo de novo, temos medo do que vamos encontrar, e tendenciosamentecondenamos possibilidades que batem à nossa porta, com a justificativa de que acontecerá a mesma coisa, assim como ocorreu com os relacionamentos anteriores!
Hoje, ninguém "paga pra ver"! 

Houve uma vez, que "paguei pra ver", pois sigo contra toda e qualquer postura de vida que me torne engessada e com medo de viver os sentimentos! 

Quando perdemos o medo de vivenciar a dor, nos tornamos mais libertos de aspectos enraizados culturalmente, visto que somos ensinados a "remediar"tudo que dói. 
Usamos as mais variadas formas de nos anestesiarmos afim de não entrarmos em contato com a dor, (não falo sobre a física, mas a emocional, da ordem dos sentimentos e pensamentos). 
Temos hoje a nossa disposição uma variedade de coisas absurdas que nos possibilitam a distração, pois assim, não precisamos lidar com momentos de tristeza, angústia, dúvida, revolta, raiva, solidão, dor, mágoa, sentimentos de vazio, entre outros...
Sempre digo que "não há nada de mal"em nos utilizarmos dessas coisas , desde que tenhamos plena consciência do porque estamos utilizando! Desde que não se torne uma via de escape constante, de modo que comprometa nossa saúde psicológica e física, de modo que se torne vicioso, uma muleta, e assim, de fulga em fulga, vamos vivendo na marginalidade de nossas emoções mais profundas, e a superficialidade ganhe espaço dentro de nós! Temos então perdido nossa capacidade de nos relacionarmos, primeiramente com nós mesmos, com nossos entes mais próximos, família, com nossos amigos, com nossos companheiros(as) evitando nos entregarmos por completo!

Nesta vertente, JUNG [1875 – 1961] (2015) no livro “Sobre sentimentos e a sombra” aponta sobre a importância para o processo vivencial humano, relacionarmo-nos com o outro, ou seja, o compartilhamento entre as pessoas:
“E desse modo é necessário que as nossas vivências passem primeiramente por um real processo vivencial. Podemos ter qualquer tipo de vivência; mas, se passarmos por ela sozinhos, então é como se não tivéssemos de fato nos dado conta. É preciso que dividamos com alguém, assim teremos possibilidade de tomar consciência de forma plena. E somente então somos capazes de perceber o que certas vivências significam para nós em termos de sentimentos. Muitas vezes percebemos que, quando esses sentimentos não se tornam conscientes, coisas em nós estagnam podendo desdobrar-se a partir dos mais estranhos efeitos totalmente incompreensíveis para nós.” (JUNG, 2015, PG. 14)

Sabemos muitas vezes que, quando estamos no início de um envolvimento com o "outro(a)", com frequência ouvimos argumentos como: "eu não estou no momento de me relacionar de novo, não quero nada sério"; "eu nunca mais vou ter nada sério com ninguém, não acredito mais no amor verdadeiro"; "as pessoas se transformam quando formalizamos para namoro e tudo vira um inferno"; "eu estou machucado(a), estou com as emoções bagunçadas, não estou inteiro(a) para entrar em um relacionamento", e por aí vão os argumentos... 

Lamentavelmente, isso tem tornado a vida mais distante entre as pessoas, como nos fala Bauman, sobre as Relações Líquidas, em que nosso momento Histórico vem contribuindo nocivamente para o modo como temos nos tratado, e na aceleração das coisas, e nas inúmeras diversidades que temos a nossa disposição para escolher, "NÃO ESCOLHEMOS NADA", mas "DESFRUTAMOS DE TUDO E DE TODOS", como um cardápio de opções que acionamos conforme nosso momento e necessidade em satisfazer o prazer. 
Somos induzidos a ver estas coisas somente pela perspectiva benéfica, pois, "se algo me faz bem, me trás momentânea alegria, me trás alívio para momentos aos quais não suporto sentir, refletir, conviver, então julgo ser o modo mais coerente de conduzir as circunstâncias difíceis da minha vida". 
Será? Você já se perguntou se isto é o que lhe melhor convém, e não o que é melhor para você, mesmo que não seja o que você queira fazer? Nem todas as nossas escolhas e decisões são baseadas naquilo que nos é melhor, mas, em sua grande parte, no que nos "satisfaz, nos distai, no que nos possibilita atalhos para não termos que ir na raiz do problema, naquilo que possibilita um efeito placebo, a auto-sabotagem". 

A vida é feita de relações, não de coisas! 
E quer você queira ou não, terá que lidar com as emoções e sentimentos que isso implica... 
Perder o medo de sofrer, de se machucar, de sentir dor, nos torna mais fortalecidos emocionalmente, nos possibilita oferecer nossa inteireza ao "outro", ainda que não sejamos seres completos, ainda que estejamos despedaçados e estilhaçados por dentro devido a vivências anteriores, ainda que tenhamos defeitos, falhas, imperfeições e modos peculiares de nos expressarmos e de conduzirmos nosso cotidiano! 
Quando nossos pensamentos e sentimentos estão frágeis, acabam se contaminando, nossa postura de vida passa a ser permeada pela falta de esperança, de otimismo, pela falta de crença no lado bom da vida, e isto vai nos matando gradativamente, dando lugar à terra árida, sem vida, carregada de amargura, onde todas as sementes que são lançadas acabam não germinando, o solo já está adoecido!

Algum palpite para curar esse terreno (emoções, sentimentos, pensamentos) adoecido?

Permita que eu te ame!
Permita que eu entre em sua casa bagunçada, com sujeira, cheia de pó pelos cantos, de caixas velhas nos fundos do armário em que contém fotos amareladas que contam sobre amores que se foram,
Permita que eu conheça sua desordem, de universo desajustado, suas memórias de infância, seus brinquedos preferidos, suas aspirações de juventude, medos incompreendidos,
Permita que eu te conheça de um jeito torto, de um jeito lúdico, sem formalidades, sem ser anunciado nem nomeado, sem padrões,
Permita que eu te ame, mesmo que estejas em pedaços, mesmo que se nomeie louco, insano, impulsivo, cheio de gostos peculiares e pouco convencionais, mesmo que seus sonhos não incluam a receita de bolo que a cultura impõe como convencional,
Permita que eu te ame, pois trago folhas em branco, sem medo, sem conceitos pré determinados, sem receios nem maldade,
Trago um coração destemido, limpo, louco, carregado de sentimentos, aventureiro, dócil, forte, valente, apaixonado pela vida, cheio de cores e sabores, paciente, cúmplice de todo tipo de história,
Meu segredo? 
Já habitei as profundezas da dor, já transitei os abismos do outro lado da vida, já me segurei em apenas um fio de esperança sem saber se haveria amanhã, já me alimentei de todo tipo de amargura e rejeição, desesperança, incerteza, medos e dias intermináveis de cinza...
Foi neste terreno lodoso que a dor se transformou! Algum artificio para anestesiar tais circunstâncias? Não, nenhum, absolutamente nada! Ser a própria companhia, conhecer a própria sombra, e pacientemente desbravar os caminhos tortuosos.

Por isso sei, que devemos permitir-mo-nos ao amor, deixar-se ser tocado, ainda que estejamos com feridas expostas, ainda que desacreditemos de que as coisas possam dar certo, e que não precisamos nos acostumar a viver na dor, por ser já um terreno habitualmente conhecido! Permitir-se ao desconhecido nos faz crescer, nos lançarmos no abismo nos capacita a sermos mais plenos de nós mesmos!

Então eu retomo a frase inicial: "Houve uma vez, que "paguei pra ver", pois sigo contra toda e qualquer postura de vida que me torne engessada e com medo de viver os sentimentos!"

Perguntou-me: "Em que você está pensando?"
Disse: "Você quer a verdade?"
Respondeu em tom de riso: "Não!... Está bem, pode dizer!"
Respondi: "Permita que eu te ame!"
Respondeu: "Em que sentido?"
Eu disse: "No sentido de sentimento"
(um silêncio ocupou aquele espaço por algum tempo...)
Disse: "sei que joguei um balde de água fria"
Respondeu: "Não sei o que dizer..."

É... As vezes quem pergunta não faz idéia do quanto pode ser surpreendido! 
Em tempos de relações líquidas, insano é aquele que sente, que sente muito, e que não tem medo de se lançar, pois a única forma de viver que conhece, é ser pleno, é oferecer o que de melhor possui, sem medo de encontrar um terreno árido, em pedaços, confuso, receoso, e decidido a não se aprofundar!
Ainda sim, seguirei sendo louca, investindo em adentrar em terreno árido para irrigar com amor. 



💭   ... que possamos refletir o que essa imagem diz, e o que tem a ver com nós! Que pensemos com carinho se, é assim que gostaríamos de viver nossas relações... 












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